
Tereza: “Conversei com a minha filha e ela me contou o que aconteceu na viagem. (Helena vai interromper, mas Tereza não deixa) Calma. Só estou começando a falar. Ela me contou das discussões, brigas, desentendimentos que tiveram. Não penso que em todos esses momentos, ela teve razão. Sei que muitas vezes ela é insuportável, como toda jovem mimada, que sempre teve tudo que quis. Mas eu avisei você que seria assim. Lá, no aeroporto, na hora que iam viajar, eu falei como era a minha filha e pedi para que você tomasse conta dela. Falei que ela não era uma criança a quem se precisa dar a mão para atravessar a rua, mas uma criança por dentro. Insegura e meio passional, como todas as mulheres. E que você, que também é jovem, mas é experiente e está nessa estrada e nessa vida de modelo há bastante tempo, tinha que ser tolerante, tapando os ouvidos pra toda e qualquer bobagem que ela pudesse dizer. Mas não. Você, partiu para o enfrentamento”.
Helena: “Depois de muita tolerância”.
Tereza: “Devia ter dito pra mim que a sua tolerância tinha limites e que era pavio curto. Mas não. Bancou a forte. A que assume uma responsabilidade capaz de levar até o fim. E com isso empurrou minha filha para a morte. Porque se ela estiver mesmo definitivamente incapaz de uma vida normal, quem sabe ela mesma não há de preferir estar morta? E enterrada?”
Helena: “Eu não penso assim. A vida é tudo”.
Tereza: “Porque não é você, nem filha sua. Porque não sabe o que é ver morrer os sonhos tão cedo na vida! Tão cedo perder a esperança! Não conseguiu tudo que quis? Não saiu da pobreza para o conforto? Não subiu todos os degraus que estavam diante de você? Não superou o preconceito contra a sua cor? Não chegou lá em cima? Não conseguiu um casamento com homem rico? Não tem tudo que quer?”
Helena: “Não consegui um casamento, Tereza. Casei por amor. E amo e respeito o meu marido, como qualquer mulher”.
Tereza: “Petulante. Sempre foi petulante. Não vou me esquecer da sua cara na suite da minha casa em Búzios, vestindo-se para casar com o homem que foi meu marido! Na minha suíte! E depois, na minha casa, jogando no meu rosto, que ela era, a partir de então, a sua casa! E que quem devia sair era eu!”
Helena: “Não foi da maneira que você está falando!”
Tereza: “Foi da maneira que eu entendi. E isso é o que interessa!”
Helena: “Não é preciso que você me encha de culpa, porque eu já fiz esse trabalho por você. Estou sofrendo e me culpando o tempo todo! Sem um só segundo de descanso! Trocaria de lugar com a Luciana, se isso fosse possível. Daria a ela as minhas pernas e os meus braços para que ela voltasse a ser inteira, perfeita! Não fui bastante madura, acabei me envolvendo e não me controlando. Estou pagando por isso”.
Tereza: “É tudo que você pode me dar: a sua culpa e seu arrependimento. Mas isso é muito pouco perto do que eu estou sentindo. Do que a minha filha está passando. E estamos só no começo, só no primeiro dia! E só Deus sabe o que ainda está por vir. E se vamos aguentar. E se ela vai aguentar. Fique com a sua culpa e o seu arrependimento. Se fez um aborto para conseguir um contrato, não devia se ofender. A verdade acaba aparecendo mesmo, a gente queira ou não. Se subiu na vida a partir desse contrato, subiu mesmo a partir da morte de uma criança. Não devia se sentir tão ofendida com a verdade”.
Helena: “Eu sei”.
Tereza: “Fique agora com esse segundo crime na consciência. E tente ser feliz com eles”.
Helena: “Sei que não vai me perdoar, nem agora, nem nunca, mas é tudo que eu posso fazer neste momento: pedir perdão a você. De joelhos”.
E ajoelha-se, sincera e comovida. E Tereza, num gesto súbito, dá uma sonora bofetada em Helena, que apenas fecha os olhos com a dor.
Tereza: “Estou lhe devolvendo a bofetada que você deu na minha filha!”
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